quinta-feira, outubro 02, 2014

Enxoval hospitalar


A sensibilização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para aplicação de normas técnicas é uma das metas das Comissões de Estudo da normalização de artigos têxteis e não-tecidos para uso odonto-médico-hospitalar. A gestora do Comitê Brasileiro de Têxteis e do Vestuário (ABNT/CB-17) Maria Adelina Pereira comenta que a certificação de produtos “facilitaria enormemente o atendimento de editais e viabilizaria a redução do custo no de tempo da compra. Os usuários e profissionais da saúde, principalmente, contarão com produtos confiáveis que venham a garantir a qualidade e a segurança do atendimento”.

A importância do enxoval é medida pela qualidade da “estada” do cliente e usuário hospitalar e não existe qualidade ao “deitar” numa cama (leito) sem lençóis, independente do nível de exigência do mesmo. A exigência é proporcional a necessidade. Quanto maior a necessidade menor será a exigência.
A lavanderia apresenta como fonte de solução da limpeza e higienização do enxoval hospitalar, porém ainda é uma grande lacuna entre o “estado problemático” (roupa suja e usada) e o “estado da arte” (roupa limpa e higienizada).
Os riscos operacionais (sanitários, comportamentais, ergonômicos), segurança (acidentes físicos, químicos e biológicos), ambientais (biossegurança, descarte de resíduos do processo) e sociais (pacientes, usuários e sociedade), formam o ciclo vicioso do estado problemático. A gestão dessas restrições e os resultados definem o “estado da arte”.
A lacuna pode estar na cultura. O processamento da roupa ainda é apontada como a remoção das sujidades. Raramente como a preparação do enxoval para o conforto e a segurança sanitária dos usuários. A lacuna pode estar na cultura.
O enxoval hospitalar tem um ciclo operacional e como tal deve ser analisado em todas as suas fases desde a seleção para a sua aquisição até o momento do descarte. Existem uma infinidade de normas, regras, paradigmas, bom senso etc., para esse fim e todas devem ser avaliadas.

1- Ao escolher o enxoval hospitalar deve-se considerar os fatores de conforto, técnico, vida útil contábil e segurança sanitária. A aquisição pelo menor preço pode comprometer novos recursos financeiros por futuras reposições não programadas. A compra deve ser realizada pelo custo e retorno do investimento (médio e longa prazo) e não apenas pelos “menores gastos” no curto prazo. Essa invisibilidade afeta a qualidade e a rentabilidade da organização.

2- Os dois principais fatores de atenção ao momento da compra são: A qualidade (técnica) e a quantidade (volume) do enxoval. Qualidade sem quantidade ou quantidade sem qualidade impactam, negativamente, no conforto, vida útil, segurança sanitária e retorno sobre o investimento. 
As normas ABNT NBR devem ser verificadas como padrão de qualidade. A quantidade (pode variar com a localização geográfica) parte de base de cálculo do gestor (dados passados) ou conforme recomendação disponibilizada pela Anvisa (http://www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2007/041207_1.htm).
A partir do estoque inicial (implantação) o mesmo deverá ser controlado como um conjunto de peças do ciclo operacional (novas; em uso [mudas de roupa]; conserto e peças para transformação e reparos [confecção a partir de outras peças já existentes]). O número de mudas (giro da roupa) representa a quantidade de peças circulante (ativo) da lavanderia (leito; lavanderia; rouparia [prontas para uso]).
Com a terceirização o tempo de retenção para processo (lead time) deve ser incluído.

3- Os tecidos selecionados devem atender aos padrões exigidos pela ABNT (13734:1996 [roupa hospitalar: características]). O enxoval hospital é de grande importância, a sua falta pode provocar, inclusive, interrupção do atendimento das unidades dos serviços de saúde (Lisboa, Torres [2008]).
A ABNT apresenta normas de qualificação e métodos de ensaios ABNT NBR 14027:1997 (Roupa hospitalar: Confecção de campo simples); ABNT NBR 14028:1997 (Roupa hospitalar: Confecção de campo duplo), ABNT NBR 14873:2002 (Não-tecido para artigos de uso odonto-médico-hospitalar: Determinação da eficiência da filtração bacteriológica); ABNT NBR 14920:2008 – Não-tecido para artigo de uso odonto-médico-hospitalar: Determinação da resistência à penetração bacteriológica a seco); ABNT NBR 15622:2008 (Não-tecido para artigo de uso odonto-médico-hospitalar: Determinação da resistência à penetração bacteriológica a úmido) entre outros.
A ABNT classifica em T1 (avental, bota, camisola), T2 (felpudos), T3 e T4 (campos cirúrgicos e sacos hamper), T5 (cobertor) T6 (lençóis, fronhas, pijamas) e T7 (colchas). As peças podem ser 100% de algodão (T1; T2; T3; T4 e T7), o T5 e T6  podem ser mistos (algodão [50%]/ Poliéster [50%]).
Usa-se em especial os tecidos de 100% algodão, pois a presença de poliéster limita o uso de certos equipamentos hospitalares, tais como bisturi elétrico (o poliéster não descarrega a eletricidade estática.) e também absorve a gordura (suor, pomadas e cremes) que promovem manchas que são difíceis de remoção.

4- Os tecidos apropriados mas, em condições adversas perdem características de qualidade e podem onerar os custo hospitalares e tornarem-se tão frágeis quanto os tecnicamente inadequados. O triangulo da vida útil dos tecidos é composto pela Composição, Tratamento (lavagem) e Manuseio.
A composição têxtil deve atender a conformidade ABNT quando da aquisição, durante o ciclo operacional (uso, coleta, lavagem, estocagem [lavanderia e transporte] e manuseio [uso hospitalar, transporte, estocagem [lavanderia] e transporte) e manuseio (uso hospitalar, transporte, estocagem [rouparia]) com o objetivo de reduzir perdas e danos precocemente.
Os danos podem ocorrer nas etapas de lavagem (carga da máquina, taxa de água, tempo de lavagem, características e agressividade do produto, temperatura e qualidade da água); centrifugação (torção e repuxo); secagem (tempo e temperatura); calandragem (repuxo e temperatura); transporte (risco por danos físicos); estocagem por danos (biológicos, umidade, fungos, bolor, ferrugem, perfuro-cortantes) e transportes (danos, avarias etc.).
São variáveis causas e a melhor alternativa é o controle das etapas do processo. A ABNT também normatiza ensaios (que recomendo) como métodos de controle da vida útil do enxoval como determinação da gramatura, fricção e resistência à tração.
O controle da resistência aos danos no enxoval é uma medida de gestão do enxoval. A tabela (padrão internacional) da WKF (Wisal Kamal Farbics [http://wkf.com.pk/about-wkf/]) ou TNO (Toegepast Natuurwetenschappelijk Onderzoek or  Dutch Organization for Applied Scientific Research [http://www.tno.nl/]).
A tabela WKF estabelece a perda da resistência à tração após 20 lavagens (tecido padrão holandês, utilizado para realização de testes de durabilidade), parâmetros do IFI (Internacional Fabricare Institute), hoje DLI (Drycleaning and Laundry Institute [http://dlionline.org/]).
A classificação da tabela genérica DLI vai de Excelente (A [menor que 5%]), Bom (B [de 6,0 a 10%], Regular (C [11,0 a 15%]) a Excessivo (D [maior que  15%). Na tabela TNO (Holandesa) de dano mecânico e químico a perda da resistência à tração após 25 lavagens é classificada como Excelente (menor que 9%), Muito bom (9%), Bom (11%), Regular (13%), Ruim (15%), Muito Ruim (17%), Péssimo (maior ou igual a 19%) após 25 lavagens.
Se os parâmetros estiverem em acordo com as tabelas de padronização, é possível afirmar que além de uma boa aquisição os cuidados de manuseio e tratamento estão sendo satisfatórios.

5- A técnica de monitoramento é a contagem individual das peças por período (estoque inicial + (aquisição – descarte) = estoque final). A tecnologia da contagem pode ser convencional, mecânica ou com o auxílio da informática.
A tecnologia vai promover a velocidade na coleta dos dados, não garante a qualidade da informação. A disciplina é um comportamento que contribui para a qualidade da informação. Instalar artefatos de controle sem a disciplina do controle é uma inadequação de qualidade e não deve ser praticada. 
Dois modelos podem ser aplicados na esfera tecnológica: o barcode (código de barras e o RFID (rádio frequência). O barcode é mais barato por unidade, porém tem como restrições em função do manuseio das peças sujas. A NR 32 recomenda a mínima manipulação das peças sujas (contaminação da roupa ao homem) e das peças limpas (contaminação do homem a roupa).
O RFID (chip) é o recurso mais adequado, de maior qualidade de registro, porém ainda é considerado de alto custo. Essa avaliação (custo) depende do foco dado a gestão do enxoval.

6- O uso correto do enxoval é proporcional a sua aparência (sentimento do cliente), suas características técnicas (resistência a tração [ABNT NBR 11912], danos químicos [físicos e biológicos). A lavanderia hospitalar deve controlar esses indicadores. Peças de roupa, principalmente lençóis com baixa resistência podem provocar acidentes (na transferência) se estiverem com sua resistência abaixo das especificadas.
O controle de resistência a tração, de danos físicos, químicos são referencias (ABNT) que devem ser verificadas continuamente como indicador de qualidade do enxoval. O tempo de vida útil deve atender ao Retorno sobre o investimento. As  peças do enxoval que foram adquiridas com tempo de durabilidade para 50 / 100 / 200 utilizações devem ser assim controladas (e alocadas nos custos das intervenções ou hotelaria). Primeiro pela característica segurança do paciente, segundo pelo aspecto financeiro.
Os fabricantes de tecidos afirmam um limite mínimo de vida útil, porém o uso e o tratamento são elementos de redução da mesma. Não é um fator limitador, são vários e todos devem ser monitorados.

7- As recomendações ainda são as gerais de descarte de resíduos sólidos. Não existe nada mais específico em normas brasileiras para hospitalar. O destino das peças após uso é variado, alguns utilizam as peças como panos de limpeza, outros que incineram ou descartam junto com os demais lixos hospitalares. Não há nada específico, mas temos a Lei de deposição de resíduos sólidos obriga aos hospitais maior critério para esse descarte.
Na avaliação dos técnicos e membros da Anvisa, é preciso distinguir o aproveitamento de sobras de tecidos que não foram utilizados pelos serviços de saúde,  das peças usadas. Para produtos já empregados nas atividades dos hospitais e descartados após o fim da vida útil, é obrigatória desinfecção e lavagem antes do reaproveitamento do material para outras finalidades. Caso contrário, a unidade de saúde deverá enquadrar o tecido como resíduo e dar a destinação específica, de acordo com o grupo de risco biológico, químico, radioativo ou perfurocortante, definido na legislação sanitária.

8- Terceirizar é descentralizar e flexibilizar as decisões da empresa, com co-responsabilidades, por meio de parceiros que priorizem o equilíbrio e a integração dos objetivos e das metas, evitando a exploração da atividade sem foco no negócio.
A terceirização exige cuidados portanto, deve-se observar pontos importantes como: avaliação do objetivo que se deseja alcançar; discutir abertamente o processo com toda a equipe; não procurar simples empresas, mas gerenciadoras e parceiras; verificar a qualidade, a competência, a especialidade e auferir a capacidade do terceiro; estabelecer contratos flexíveis e renováveis; pensar no futuro – observar o padrão – firmar contratos com compromisso e com os resultados; não ter pressa de terceirizar; evitar comprometimento da qualidade; analisar a base financeira da empresa; sua solidez ao tempo, sua responsabilidade social e, fundamentalmente, evitar ações mágicas.
Na lavanderia, a terceirização passa por dois pontos críticos sendo que um deles, independente da terceirização ou não, é o número de mudas do enxoval. Esse requisito é primordial para a redução dos custos operacionais e patrimoniais. Mudas reduzidas desgastam-se mais rapidamente pelo excessivo número de lavagem a que são submetidas e ainda podem alterar o cotidiano hospitalar negativamente, inclusive provocando riscos à saúde dos pacientes pelo cancelamento de intervenções cirúrgicas.
A escolha dos terceirizadores é a base para o sucesso da parceria.   Dentre as vantagens, a especialização da atividade; questões trabalhistas reduzidas; parceria adulta e profissional; exigência do mercado na especialização; desempenho; rentabilidade; qualidade e infra-estrutura de apoio.
Como desvantagens, a falta de padronização de qualidade ou operacional; adaptação à cultura da empresa (para ambos); custo elevado e capacidade técnica duvidosa ou não comprovada.
A terceirização não torna a empresa terceirizada livre de problemas, é necessário que o compromisso com a visão e a missão sejam prioridades da terceirizada. É importante que o contrato seja firmado de forma inteligente e que o relacionamento entre as empresas seja, ao mesmo tempo, ”íntimo” e profissional.
Diante desse aspecto é importante ressaltar, para os terceiros e terceirizados a capacidade operacional (equipamentos e transporte), o produto utilizado, a capacidade técnica funcional, o controle operacional, a responsabilidade comercial e financeira, os registros e licenças, a higiene e a logística definida. A terceirização pode incluir, além da lavagem de roupas, a terceirização (parcial ou plena) dos funcionários, o próprio enxoval, como aluguel ou aluguel com lavagem.
A terceirização não é um processo gerador de conflitos cujo resultado é “perder-e-perder”. O foco estratégico é a especialização das atividades periféricas. Não se pode terceirizar pelo menor preço, alguém vai pagar essa conta. As empresas que não cobram por seus serviços pode transferir problemas futuros para o terceirizado, ou seja, você vai assumir problemas futuros.
1.    Qual a importância da correta escolha dos enxovais para hospitais?
2.    Que fatores os hospitais devem se atentar no momento da compra?
3.    Quais os tecidos mais apropriados?
4.    Que cuidados os hospitais devem ter com as peças?
5.    O uso de tecnologia para monitoramento das peças é uma boa solução contra os furtos e avarias?
6.    Qual o tempo correto de uso dos enxovais?
7.    Qual deve ser o correto destino das peças?
8.    Que cuidados se deve ter na escolha da lavanderia no caso de terceirização do setor?
9.    E nos casos de lavanderia própria, quais as exigências?

A qualidade estrutural e sanitária das instalações, a equipe de trabalho e o enxoval são os pontos fundamentais para realização do processo de lavagem da roupas hospitalar. A RDC 50 e o Manual de Lavanderias – Anvisa, aborda essas questões assim como a NR 32 no tocante a gestão e aos riscos ocupacionais.

No planejamento devem ser  observados padrões e normas de segurança e saúde ocupacional, de  proteção contra incêndio,  de controle de infecção, recursos humanos, infra-estrutura física,  equipamentos, produtos e insumos, dentre outros (BRASIL, 2005 – NR 32; BRASIL, 2002).

Nenhum comentário:

Postar um comentário